O tratamento psiquiátrico: um pouco da história

Atualizado: 22 de ago. de 2019


Estava lendo novamente a graphic novel Asilo Arkham, de Grant Morrison, ilustrada por Dave Mckean e pensando, que a questão da loucura dos personagens já foi bastante abordada em outros blogs (vou deixar o link de um que eu gosto), mas o texto me fez pensar a respeito da conturbada história do tratamento psiquiátrico.


Na HQ, os internos do Asilo Arkham fazem um motim, usam os funcionários do hospício como reféns e exigem a presença do Batman, que acaba por enfrentar não só os seus inimigos, mas também a si mesmo, e o horror da sua própria loucura. Morrison cria um ambiente perturbador, tão perturbador quanto a verdadeira história dos tratamentos psiquiátricos nos seus primórdios.


A psiquiatria, no século XVIII com Philippe Pinel, era a área da medicina que se preocupava em cuidar dos doentes mentais. Foi com Pinel que os problemas relacionados à loucura passaram a ser considerados como doença, o que foi um grande avanço. Na época, os portadores de doença ou distúrbio mental, os então chamados loucos, eram tidos como malandros ou possuídos por demônios e deveriam ser deixados de lado, excluídos do convívio social.


A psiquiatria começou a mudar essa visão ao mostrar que a “loucura” era um problema de saúde e as pessoas deveriam receber atenção social. No entanto, mesmo assim, ela não encontrou um caminho claro para tratar do problema. As doenças mentais não tinham causas tratáveis como uma gripe. Somente no século XIX, Emil Kraepelin um psiquiatra, criou o primeiro modelo de classificação psiquiátrica das doenças mentais e admitiu que, por mais que se observassem diferentes transtornos, não seria possível identificar com clareza as suas causas.


O início dos tratamentos psiquiátricos teve início na década de 1920, com a Malarioterapia: inoculação do agente causador da malária para o tratamento da demência causada pela Sífilis em estágio avançado. Com a descoberta da insulina veio a Insulinoterapia destinada ao tratamento de pacientes psicóticos, principalmente os esquizofrênicos.


Os psiquiatras tinham em suas mãos pacientes com doenças desconhecidas que precisavam ser tratadas e que, sem tratamento, entravam em surto e eram um risco não só para si, mas também para os outros à sua volta. Eles então encontraram brevemente um paliativo: a morfina.


Esse remédio era utilizado na época como anestésico e, durante um tempo, funcionou para controlar os surtos dos pacientes, pois eles ficavam dopados e controlados. Mas, o conhecimento da morfina não era tão amplo e logo se descobriu que ela provoca dependência e tolerância, ou seja, vicia. Os pacientes além de terem surtos cada vez mais fortes, sofriam com efeitos de abstinência da morfina, como dores musculares e outras reações adversas, além de a morfina não ter mais o efeito anestésico desejado. Alguns pacientes chegaram a morrer devido ao uso abusivo de morfina.


A cocaína naquela época era uma droga vendida livremente em farmácias, igual sal de fruta, havia inclusive, indicações recreativas e calmantes da droga, que era usada diluída em água ou outro solvente para ser ingerida ou pingada nos olhos.


No início do século XX o problema dos dependentes em morfina e em cocaína era grave. Foi então que a farmacêutica Bayer comercializou um novo remédio que supostamente iria combater os problemas da dependência em morfina e cocaína, a heroína, o nome deve-se ao fato da crença de que o remédio salvaria a sociedade desses problemas. No entanto, descobriu-se que ela era só uma forma mais potente e rápida da morfina. De certa forma, a heroína curou dependentes de morfina e cocaína, mas criou novos dependentes dessa nova droga.


A morfina e os outros opióides acabaram sendo proibidos por seus prejuízos à saúde e permitidos somente em alguns casos médicos específicos. A saga continuou e na década de 1950 descobriu-se a clorpromazina, comercializado sob o nome Torazina. Descobriu-se nele um forte efeito calmante, similar à lobotomia, ou seja, pacientes tratados com clorpromazina poderiam ter vidas relativamente normais.


O uso dessa droga permitiu a diminuição do uso de práticas restritivas como isolamento e camisa de força, porém, descobriu-se que esse remédio possuía muitos efeitos colaterais irreversíveis, como contrações involuntárias semelhantes ao mal de Parkinson. E, desde então, tem-se tentado encontrar algum remédio que possa ter o efeito desejado sem ter tantos efeitos colaterais como aqueles que apareceram e foram utilizados na história.


DICA:

Para ler – livro físico ou digital: Arbex, Daniela. Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração Editorial, 2013.

Para assistir - Documentário baseado no livro, lançado em 2016, dirigido por Daniela Arbex e Armando Mendz, no: https://www.youtube.com/watch?v=y6yxGzlXRVg