Angola Janga - Prêmio Grampo 2018

Atualizado: 22 de ago. de 2019

A graphic novel Angola Janga: Uma História de Palmares escrita e desenhada por Marcelo D’Salete foi a vencedora do Prêmio Grampo 2018 de Grandes HQs, organizado pelos blogs Vitralizado e Balbúrdia.


A trama

O autor com muita sensibilidade e propriedade conta a história de personagens negros como Zumbi, Antônio Soares, Ganga Zumba e Ganga Zona moradores do Quilombo dos Palmares, antes conhecido como Mocambo de Palmares. Texto e imagem capturam a resistência dos quilombolas ao sistema da casa-grande, mostrando a face violenta dessa fase da nossa história.


Na narrativa são destacados além da saga de cada personagem, os conflitos como o Acordo de Cucaú (a principal tentativa de acordo de paz entre os aquilombados e a Coroa), e a presença do Terço dos Henriques, grupo de soldados negros e mestiços que lutaram contra os holandeses e contra os palmaristas, tornando a história mais complexa e instigante.


Os homens e mulheres protagonistas dessa história épica procuraram nos mocambos viver em liberdade e ter autonomia sobre suas vidas, na HQ eles são os protagonistas, falam de suas dúvidas, angústias, sonhos.


O contexto histórico

O Quilombo dos Palmares reuniu mais de 20 mil quilombolas na segunda metade do século XVII. Os mocambos eram muitos e localizavam-se a mais de 30 quilômetros um do outro, dificultando sua destruição.


Quando ocorreu a ocupação do Recife e de Olinda pelos holandeses em 1630, muitos dos africanos escravizados aproveitaram o conflito entre portugueses e holandeses para fugir para Palmares.


Os povos que viveram em Palmares falavam quimbundo, ovimbundo, umbundo e várias outras línguas que influenciaram o português. As palavras que vêm dessas origens aparecem na narrativa, envolvem o leitor e o transportam para o Brasil e Angola daquela época.


Um dos nomes que os palmaristas utilizavam para falar de Palmares era Angola Janga, que significa "pequena Angola" e vem da língua do tronco banto chamada quimbundo. Apesar de ser tão pouco estudado nas escolas o Quilombo dos Palmares teve 100 anos de duração.


A história dos quilombos da época colonial e dos remanescentes precisa ser contada nas escolas e universidades, ainda mais agora quando os quilombos contemporâneos estão ameaçados por grandes fazendeiros e empresas e quando a Base Nacional Comum Curricular excluiu o estudo da história, cultura e identidade dos povos afrodescendentes, dos indígenas e dos povos da terra do currículo.


Onde acontece a saga dos palmeristas



O Quilombo dos Palmares localizava-se na Serra da Barriga, na então Capitania de Pernambuco, região hoje pertencente ao município de União dos Palmares, no Estado de Alagoas.


Embora tenha surgido no final do século XVI, o apogeu do Quilombo dos Palmares foi durante a segunda metade do século XVII.


O contexto histórico: a colônia

O Brasil Colônia compreende o período entre a chegada dos portugueses em 1500 e a independência do país em 1822.


Com o objetivo de garantir o controle do território, em 1534, o rei de Portugal, D. João III, dividiu as terras em faixas, as Capitanias Hereditárias. Elas foram doadas para nobres e pessoas de confiança do rei (os donatários) que tinham a função de administrar, colonizar, proteger e desenvolver a região, além de combater os índios que resistissem à ocupação do território. Em troca destes serviços, além das terras, os donatários recebiam algumas regalias, como a permissão de explorar as riquezas minerais e vegetais da região.


Com exceção das capitanias de Pernambuco e São Vicente, todas acabaram fracassando. Por essa razão em 1549, o rei de Portugal criou um novo sistema administrativo para o Brasil: o Governo-Geral. Este seria mais centralizador, cabendo ao governador geral as funções antes atribuídas aos donatários.

O sistema de Capitanias Hereditárias durou pouco tempo, mas deixou marcas, como a distribuição desigual das terras que gerou posteriormente os latifúndios, causa das desigualdades nas áreas rurais.


A base da economia colonial na época em que a história da HQ se desenrola era o engenho de açúcar, que utilizava a mão de obra africana escravizada e tinha como objetivo principal a venda do açúcar para o mercado europeu, além da produção de tabaco e algodão.


O Brasil se tornou o maior produtor de açúcar nos séculos XVI e XVII. As principais regiões açucareiras eram a Bahia, Pernambuco, parte do Rio de Janeiro e São Vicente (São Paulo).


No final do século XVII, as exportações de açúcar começaram a declinar e Portugal passou a buscar novas fontes de renda como o ouro, nessa época as expedições de bandeirantes iniciaram a busca do metal.


O personagem do épico Angola Janga, o bandeirante Domingos Jorge Velho foi contratado pelo governador de Pernambuco para esmagar o Quilombo dos Palmares. A ele foi dado pleno direito, inclusive o de prender qualquer branco que ajudasse os palmaristas. Se bem-sucedidos, o bandeirante e seus homens seriam recompensados com dinheiro e terras.


No dia 6 de fevereiro de 1694 o aldeamento principal do Quilombo dos Palmares foi destruído pelos homens do bandeirante Domingos Jorge Velho. Esse feito contribuiu muito para a construção do mito do bandeirante herói, mais uma história que na escola precisa ser revisitada e contada pelo olhar dos palmaristas.


Autor e obra

Ao longo dos anos de pesquisa, D'Salete lançou outros trabalhos também dedicados à temática racial, incluindo Noite Luz (2008), Encruzilhada (2016) e Cumbe (2014) – este último foi publicado em Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha, Áustria e Itália.


Para recuperar as histórias de Palmares contadas em Angola Janga D’Salete pesquisou durante 11 anos, inclusive no Museu Afro Brasil. As fontes históricas sobre Palmares e sobre as relações que se formaram na região são em geral de autoria de pessoas que almejavam a destruição do quilombo, tais como documentos de soldados, de governadores de Pernambuco, todos documentos de pessoas que registraram a intenção do governo de acabar com aquele local. Essa pesquisa possibilitou a combinação entre ficção e realidade.


A cada capítulo foram incluídos textos interessantes, como do governador de Pernambuco (1660), a petição do rei dos Palmares, Ganga-Zumba, por paz, liberdade e entrega das mulheres (1678), além das imagens de artistas, como Frans Post e Albert Eckhout, que estiveram na região de Pernambuco no século XVII e fizeram retratos de pessoas e das paisagens.


Esse ano, a graphic novel de Marcelo D’Salete será lançada em Portugal e na França.

D’Salete, Marcelo. Angola Janga: uma história de Palmares. São Paulo: Veneta, 2017, 432p.


DICA



Imperdível: Museu Afro Brasil

Av. Pedro Álvares Cabral Portão 10 Parque Ibirapuera CEP: 04094 050 São Paulo/SP - Brasil - Acesso pelo portão 03 Fone: 55 11 3320 8900